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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Integrar a prática Pikler-Lóczy nas creches


Aqui no Brasil, as instituições de educação infantil têm origens totalmente distintas da escola obrigatória, pública, laica e gratuita para todas as crianças de 7 anos. As primeiras creches foram criadas para atender aos interesses da elite que pretendeu educar as crianças das camadas populares, já que suas mães trabalhavam e não eram suas educadoras. Essas instituições surgem como substitutas das relações domésticas maternas: são religiosas, filantrópicas e a qualificação dos professores da creche é menor do que dos que trabalham na pré–escola. Isso se deve em parte, ao fato de a creche ter surgido na área da assistência social, para prestar cuidados de saúde, alimentação, higiene e segurança, não exigindo educadores entre seu pessoal.
Em 1996 a educaçao infantil recebeu um grande reforço a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educaçao Nacional (LDB) e essa lei geral da educaçao no país definiu a educaçao infantil como primeira etapa da educaçao básica, integrando-a a educaçao necessaria a toda pessoa.


O filósofo, e historiador Búlgaro Tzevetan Todorov (1991) fez uma analogia e apontou que a relação que existe entre o adulto e a criança se assemelha com a noção de poder que prevaleceu durante muito tempo, no que se refere ao poder exercido sobre um povo. Um povo civilizado tinha o “direito” de ocupar e ocupar-se de um povo “selvagem” impondo sua política, usufruindo seus bens, com pretexto de protegê-lo… Assim, ele agia no seu lugar impondo-se diante das situações e ocupando um lugar de suposto saber. Esse sentimento de “ocupar-se de” é semelhante à relação do adulto com a criança. Assim sendo, a infância foi considerada durante muito tempo como imperfeita, sendo então natural que o adulto determine o tempo e o espaço da infância.


Essa analogia feita por Todorov ilustra a importância de olharmos para os profissionais que convivem e trabalham as crianças, para que não haja uma confusão de lugares subjetivos, gerando uma cilada em que a crecheira encontra-se nessa função intermediária , ao mesmo tempo assistencialista e profissional.


No Instituto Pikler em Budapeste, uma metodologia foi desenvolvida de forma auxiliar a cuidadora a não cair nessa armadilha e assim ocupar um lugar coerente com os valores da instituição. Essa metodologia consiste em aceitar e reconhecer a originalidade de cada sujeito. O olhar que o adulto tem sobre a criança sugere que o adulto não intervenha, nem se posicione com uma postura de que SABE como uma criança deve crescer. ” O adulto sabe no entanto quais são as condições favoráveis para que a criança se desenvolva, no entanto ele não sabe como ela deve crescer, pois segundo a prática do instituto, somente a criança pode ensinar isso ao adulto”( p.69).


Existe então uma metodologia rigorosa, que proporciona que haja reflexão, discussão com os diversos profissionais a cerca do desenvolvimento infantil, dando margem para que a criança seja percebida enquanto sujeito de respeito, que está constituindo sua subjetividade. Existe um enorme cuidado para que essa metodologia não se torne apenas um método fechado. A metodologia é uma discussão sobre as diferentes formas de agir com a criança e desta forma, cada criança vai desenvolver seu próprio método. Se quiséssemos criar um único método seria necessário que as crianças se moldassem e se adequassem a ele, ignorando que cada criança tem sua originalidade.


Como já foi mencionado anteriormente nossa realidade brasileira aponta que existe um impasse na profissão de crecheira, devido a sua função que exige que ela cuide e ao mesmo tempo eduque. Para que não haja esse descompasso que gera sofrimento psíquico tanto para a criança pequena como para o adulto, é importante efetuar um trabalho direcionado para a valorização da função de crecheira.


Por meio de um grupo de reflexão no qual a prática Pikler-Lóczy estaria em pano de fundo. surgiria um espaço que implique a crecheira a refletir sobre o desenvolvimento infantil e a importância de sua função enquanto profissional da primeira infância. Esse momento de reflexão permitiria igualmente que as crecheiras tenham um espaço para falar e serem escutadas, auxiliando-a a lidar com o desafio do cuidado cotidiano com crianças pequenas.

A fim de iniciar a discussão em grupo, usamos principalmente o trabalho com o corpo, pois o corpo é uma via de trabalho que possibilita que a pessoa sinta na pele sensações que são difíceis de serem nomeadas. Outro motivo pelo qual privilegiamos o trabalho com o corpo é que a criança inicia sua abertura para o mundo que a cerca por meio de uma dupla sustentação corporal e relacional.


Cada encontro semanal, com uma duração de 1 hora e meia, teria um enfoque específico: encontros teóricos e vivenciais com temas vinculados a primeira infância como por exemplo : cuidados com o corpo da criança (a hora do banho, de trocar fraldas, do sono), a alimentação, a comunicação, o brincar e o limite ( diferença entre autoridade e autoritarismo).
Esses encontros mais teóricos seriam intercalados por outros encontros que abordariam questões de ordem institucional vinculadas à temas como as implicações de trabalhar em uma creche.

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